Todo mundo tem vó. Ou pelo menos já teve.
As vós são legais. São fofas, almofadadas, cheirosas, emperequetadas e têm aquele charme do cabelo roxo que eu nunca entendi de onde vem.
Será que depois dos 70 o cabelo fica roxo? É punk da terceira idade? Não sei. Mas vó é legal. Não dá pra ficar bravo com vó, mesmo quando elas nos tratam como se tivéssemos 5 anos de idade. E elas o fazem: "meu filho, vc tá comendo pouco...". Aliás, almoço de vó contraria os preceitos nutricionistas mais básicos. As colheres são maiores nas casas de vó, repararam? Uma só colherada naquele strogonoff e o prato fica convexo... Dois quilos e oitocentos pro bucho... e contando... E não adianta dizer que tá bom. As vós têm o dom de saber qual o tamanho da NOSSA fome. Então, eu peço pra parar e lá vem mais uma pá de arroz no prato. Aí digo que tá bom e mais uma pá. Aí tiro o prato debaixo e mais uma pá, no meu colo agora...
Vós são seres simples e felizes. Vós não ouvem música, repararam? Vós não têm celular, e mesmo assim nos acham quando querem. Vós conseguem viver com aposentadoria. Seus maridos têm carros da década de 80, bem como hobbies peculiares, como consertar pequenos defeitos da casa, ad eternum. Vós conseguer dormir sentadas o sofá sem cair. Vós têm seu guarda-roupa recheado de blusas estampadas. Vós não sabem usar telefone sem fio e acham que fax é bruxaria. Por essa simplicidade ingênua, as vós são seres felizes. Mesmo quando a fofoca rola solta na família, são de uma ingenuidade comovente.
Vós tem nome de vós: Antonieta, Ernestina, Linda, Edna, Dirce, e afins. É como se o nome já nascesse pra que elas fossem vós, desde a infância. No masculino é mais elucidativo: dá pra imaginar por exemplo, um lindo bebezinho rosadinho e gorduxo que se chame....WALDEMAR? Pois é... Imagine: "nócha.... guti guti... que bulitinho... qual o nominho dele, hein, hein, hein?"..... "OSWALDO".... estranho...
Por outro lado, vós nos dão presentes estranhos no natal... Eu tenho certeza de que existe uma poderosa sociedade secreta de vós que detem 100% das ações das empresas fabricantes de pijamas do mundo. Sim, elas dão pijamas de natal. E com as sobras de tecido de suas centenas de indústrias de pijamas, elas fabricam meias. Elas nos dão meias também.
Elas não entendem que é mais legal dormir de camiseta. Então no meu armário tenho uma infindável coleção de pijamas com cores pastéis típicas de pijamas, a tradicional gola V e um brasão do lado esquerdo que eu nunca soube do que se trata. Não existem pijamas bonitos nesse mundo sob a forma como o vemos. Pijama é estranho, a palavra pijama é estranha. Mas o senso estético das vós sempre acha "um-pijaminha-lindo-porque-vc-tá-precisando-né-filho?" nos seus depósitos secretos espalhados logisticamente pelo mundo.
E não dá pra doar o pijama. Primeiro porque dá dó das vós. Depois porque na primeira reunião familiar pós-natal elas nos fazem desenterrar o dito cujo: "mostra pra tia Neide o pijaminha que eu te dei no natal, filho"... Aliás, repararam que em toda família existe uma tia Neide? Na sua não? Vc ACHA que não. Procura direito. É cientificamente provado. Tias Neides são onipresentes.
No fim das contas, vós são seres peculiares que nos convidam à observação. Um brinde a todas vocês, vós...
E pode deixar que eu levo um "abrigo" pra não tomar "sereno e friagem"...
ALELUIA IRMÃOS
Aconteceu então algo que eu só tinha ouvido falar. E que eu, erroneamente, atribuía a pessoas com menor acesso à informação. Uma amiga minha se converteu a uma dessas igrejas sem-nome.
Digo sem-nome porque são tantas e o nome é realmente o que menos lhes importa.
Há uma semana essa garota me ligava bêbada de madrugada peguntando qual era a balada recheada de testosterona. Hoje ela diz que não precisa mais beber, beijar, trepar e todos aqueles prazeres básicos que qualquer ser humano com o discernimento em dia gosta de usufruir.
Há de se fazer justiça separando igreja de religião. A religião pura se aproxima da filosofia; dos valores de caráter, das condutas e da fé. A igreja é uma grande centrífuga que mistura tudo e serve um prato mastigado ao "fiel", que só alimentará a ela mesma.
Mais que isso: a igreja tem o poder de incutir em seu fiel a auto-confiança insidiosa que lhe traz a falsa impressão de que agora, e só agora, ele alcançou suas plenas faculdades de entendimento seu e do mundo.
Tente argumentar contra um fiel. Ele apenas lhe dirá: vc não entende... Com toda a presunção cega de que a igreja lhe dotou. Então eu não entendo nada mesmo. Aquele é o único caminho e ponto.
Se houvesse um único caminho a seguir, como eles dizem, o inferno - a que tanto temem- estaria superlotado. A arrogância chega a pontos indizíveis por acharem eles que o caminho é aquele. A serventia cega espreme seus instintos e eles realmente começam a agir como bois a caminho do abate. Apenas uma reta em nome da redenção. Deus há de ter piedade, pois não sabem o que fazem.
A fé está em cada um. Não preciso de um pastor ricaço que prega o desapego aos bens materiais com a chave do seu Mercedes no bolso. O nome é bem apropriado: o padtor que toma conta das ovelhas obedientes. E ai delas se se desgarrarem. Agora, a contradição master: o pastor prega o inferno como casa daqueles que descumpriram os ensinamentos divinos. Uma vez que eles são os primeiros a descumprir, digo, sabendo lá no íntimo da sua luxúria que vivem às custas das somas dos miseráveis, não seriam os primeiros a pegarem o bonde pro inferno?
Se Deus existe e é onipresente, ele está dentro de mim também. O que torna a fé e a religião um valor particular, não coletivo. Claro que existem diretrizes comuns, sem as quais não seria possível viver em grupo. Mas isso se junta a qualquer conjunto de leis que regem uma sociedade.
A fé não é uma lei. Não é uma determinação. Não é uma obrigação e nem algo a que temos que lutar pra ter.
Eu pessoalmente tenho, e ela se encerra em mim. Não se culpe por não ter. Deus não vai te castigar por isso. Até pq se vc não tem, provavelmente não acredita em Deus. E como ser punido por algo em que vc acha que não existe? Eu não sei se deus existe. Eu apenas acredito; espero que esteja lá. Se não existir, paciência; não terá também sido em vão essa credulidade que por vezes me trouxe alento.
O meu deus existe aqui. Ao meu lado todos os dias que eu acordo. E o meu papo com ele é reto. Sem serventia ou submissão. Deus tá aqui pra me ajudar; acredito nisso, ou já o teria mandado passear. Deus não está aqui pra me vigiar como um bedel cagueta que anota tudo no caderninho.
Eu escolho meu caminho, e nenhum puto vai usar o nome do meu deus pra me dizer o que devo ou não fazer.
E essas igrejas se servem desse produto de fácil apelo. É muito fácil realmente vender o etéreo, o sublime, o imensurável. Dá-se a ele o peso que quiser, a medida que mais lhe interessar. Então é mais fácil vender um lote celestial do que uma bala no sinal. As promessas podem ser quaisquer, pois não há previsão de entrega, e nem como relclamá-la. Você dá em dinheiro vivo, e recebe em palavras de talento enganoso arrebatador.
Proponho uma troca: eu vendo minha fidelidade à igreja, em grana viva. Aposto que não haverá uma só oferta, porque não é disso que eles tratam. Desapegue-se você pastor e me deixe dar uma volta no seu jatinho; topa? Claro que não né? Bobo sou eu mesmo. Que ganho pouco e tiro dinheiro miserável do meu lazer pra abastecer tua conta.
Não me venha com gritinhos histéricos. Já disse: do meu deus cuido eu. Com um pouco de auto-crítica, ou seja, praticando o valoroso exercício de olhar a si mesmo de fora pra dentro, com desapego, não é difícil identificar minhas mazelas e tentar ser uma pessoa melhor. Minha evolução não passa pela porta da tua morada, pastor de bosta.
Eu gosto de beber, e adoro trepar. Parabéns pra mim, eu sou normal. Sou menos gente por isso? E se eu lhe negar o dízimo? Serei menos gente ainda... Mas não é a tua igreja que prega a igualdade entre os povos? Então essa tua segregação me parece contraditória. Como tudo o que vc fala. Como a falta de auto estima que vc chama de "encosto", ou a desesperança social que vc chama de mal-maior.
Não tem nada disso. Eu sou humano. Sou matéria. Tenho minha porção de espírito, da qual gosto demais pra largar nessa tua mão cheirando à nota de 100.
Pastor, se não lhe for assim, muito trabalho, e ciente de sua segurança e certeza de sua própria salvação; vá pros quintos dos infernos.
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