Gente,
A pedidos: eleições será o próximo tema...
Aproveito pra divulgar que meu aniversário de 30 anos será comemorado semana que vem no Bourbon Street. Quem quiser comparecer, está convidado. Estarei com o livro, pra quem quiser adquirir. Mais pra frente coloco aqui a data.
Obrigado a todos.
Gente,
Segue um texto que foi excluído do livro, mas que eu acho muito legal.
É meio longo, então está nessa mensagem e na próxima. Espero que gostem.
A Poda
Dizem que as melhores flores só desabrocham depois da poda. É difícil às vezes pensar assim, pois olhamos a um ou outro arbusto taciturno, que revela, nessas mesmas vezes, uma beleza sutil. Mas reside na poda a distância entre os adjetivos sutil e plena.
É realmente estranho a princípio, pois existe o pequeno encanto nele. Mas, dessa maneira, o arbusto pode ser cem por cento, mas será ainda e sempre ele.
Relutamos por um momento em podá-lo, mas esperamos algo depois disso. A poda, por excelência, gera dor. E da nos é difícil imaginar um fruto benéfico; um fruto que vingue tal qual o esperávamos desde o início.
Ainda assim, é de nossa intenção podá-lo, e extrair dele o máximo que ele pode nos dar. A flor mais bonita, a mais saudável, a mais colorida, a que vai atrair mais insetos pro seu androceu (lembrando as aulas de biologia do colegial) para que dele se difunda a sua magia, esperamos, única.
Mas nesse caso, trata-se da poda intencional. O corte que temos que fazer pra colher algo bom depois. A dor necessária, às vezes esperada, para a qual nos preparamos olhando unicamente para frente.
Existe, porém, o outro tipo de poda, e com este, mais bruto e impiedoso, é que temos de tomar os maiores cuidados, porque vem sem avisar.
É a poda acidental, ou incidental, ou de circunstância; perdoe redundar o português. É a poda que nos pega quando sentimos que aquela flor que vemos aberta já é a mais bela. Mas não é. Custa-nos muito acreditar que é possível haver flor mais bela que aquela que cultivamos por meses; anos. Mas existe. Tem de existir. Tem de existir porque nos é ainda mais difícil imaginar que fomos podados sem um intuito maior. Apenas podados. Não faz sentido. Soa injusto porque sabemos que regamos nossa flor direitinho, que cuidamos dela com todo o amor que achávamos que tínhamos, tirando por vezes a água de nos mesmos, em favor dela.
A poda incidental certamente não é tão precisa quanto a outra e, sendo assim, nos dilacera muito mais. Leva consigo pedaços que julgávamos nossos, e essa é a aceitação mais penosa: eles não eram nossos. Eram resultado de uma junção que tínhamos como perfeita, e de repente era mesmo. Mas nunca foram exclusivamente nossos.
Mas então, num momento seguinte, juntamos os cacos que repousam à nossa volta e vamos nos reconstruindo. Aos poucos. Sem pressa. Pra termos certeza de que cada raiz, ou cada folhinha por mais aparentemente insólita que pareça, não estão em nenhum outro canto a não ser no seu devido lugar. Onde deveriam exata e milimetricamente estar.
E então começamos a entender que tudo o que precisamos pra nos reinventarmos está aqui, dentro de nós. Não que por vezes não fraquejemos e perguntemos “por que comigo”, ou repitamos a nós mesmos escondidos de todo mundo que “preferiríamos estar do jeito que estávamos”. É natural, faz parte do processo de cicatrização.
Quando observamos uma planta de cujo caule lhe foi arrancado um galho inteiro, e reparamos dia a dia sua recomposição, notamos as marcas, percebemos as diferenças entre os tecidos. Mas é assim mesmo. E é assim que tem que ser. Guarde essa marca pra sempre, você precisará dela mais tarde.
O tempo irá te ajudar um pouco, mas você tem que cuidar do estrago que essa poda te fez. Você e mais ninguém. E provavelmente numa hora comum, semelhante às demais, ou seja, em nenhum momento previsto pela nossa presunçosa auto-compreensão como especial ou marcante, você vai começar a ter uma sensação a princípio esquisita, mas muito mais esperada: é a sua nova flor surgindo. É o pedaço mutilado do arbusto querendo crescer novamente, gritando para que você ouça dele toda a vontade de viver. Talvez você o ache estranho, afinal há tempos que você não desencadeava esse processo em você mesma. Mas acostumar-se não chega nem a ser uma virtude; é natural, é querido. E aí você começará a gostar dessa história de ver uma parte de você que você julgava morta, ressurgindo tão esplendorosamente bela a ponto de seu encanto encobrir a sua dor e seu desconforto mais e mais.
Você vai descobrir os novos segredos dessa flor recente. E o mais bonito: vai deixar que ela descubra os seus. Vai se desarmar por fim, vai se entregar, deixar-se levar nesses novos perfumes e texturas que são o mais poderoso elixir da recuperação do teu sorriso, tal qual, e até melhor, do que era antes.
E periodicamente, cada vez com menos freqüência, lamentação e dor, as quais se transformarão em saudável nostalgia, você reparará naquela marca de que te falei lá atrás (lembra que eu disse que você precisaria dela mais pra frente?). Você a olhará com os olhos arregalados, e nem um leve fio de lágrima fará seus olhos umedecerem, porque a marca já não te causa pesar. Talvez um sorriso saudoso te domine. Talvez não.
O que é certo é que você passa a ser então o resultado extremamente positivo da soma das tuas marcas, das tuas podas, e das tuas flores novas, que te permitem olhar adiante. Porque tudo o que você deixou pra trás simplesmente te sustenta.
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