Das partes do porco

 

Fejuca boa é fejuca pesada. Daquelas que tem parte de porco que nem o nome você sabe. Das que te deixam torto desejando ter nascido vegetariano comedor de feno de tanto arrependimento.

Ludibriado pela aura de satisfação gastronômica que envolve a feijoada, lancei-me na hora do almoço de plena quarta a 32° graus ao que um caminho errante, que lá me conduziu, chamaria de restaurante simples e descompromissado.

A visão das mesas já recheadas com suas próprias fejucas me aguça o paladar.

Sento e dou de cara com o cardápio que me oferece "feijoada LIGHT", a R$ 13,90.

Peço temeroso.

E logo comprovo que se há um dia na vida para uma colocação nada oportuna para a palavra LIGHT no mundo e em todos os idiomas, seria depois da palavra feijoada.

Tava tudo lá: feijão, arroz, bisteca, torresmo, couve, laranja, paio, lingüiça e carne seca...

LIGHT em variedade, nunca em calorias.

Assim, mesmo ciente de minha sina de desventuras nas horas subseqüentes ao almoço, resolvi encarar o dragão de frente e detonei a primeira garfada com molhinho de pimenta...

Como para a virgem, para mim a primeira garfada seria a pior... depois dessa, quero mais é garfar mesmo, bem como a virgem....

Lá se vão 650 gramas de partes enigmáticas do porco regadas a muito caldo denso de feijão...

A última garfada termina como o alívio do maratonista ao cair de joelhos após cruzar a linha de chegada. Dever cumprido, os hormônios machos regozijados pela vitória na batalha vencida....

Efêmera euforia. A batalha ganha não se traduz na guerra, que começo a perder ainda no caminho ao escritório...

O bolo fermentando e pesando - sabe-se lá como - 3 vezes o peso que ingeri começa a dar suas pontadas como um feto suíno me chutando de dentro pra fora.

A sensação de massa compacta estacionada na barriga, como uma taipa de pilão socada goela abaixo...

Subo o elevador procurando café pra tentar me desviar da fixação no pensamento de tudo o que havia dentro de mim naquele momento, além de mal-estar e arrependimento.

A tarde passa e o alien começa seu caminho de desgraça pelos meus intestinos...

Cólicas insuportáveis; saídas estratégicas da mesa exclusivamente pra detonar bufas com status de arma química; chá de erva cidreira, postura e respiração profunda... nada seria capaz de aliviar minha miséria naquele momento.

Se há um dia na vida pra sentir pena de mim, esse ta concorrendo com fortes chances...

As horas passam como semanas... Um suor de canto de olho denuncia o aumento das contrações... Assim como a mulher está pra parir a criança, eu to pra parir um peido. Um peido grande, gordo e saudável. Descubro depois: peidos trigêmeos...

To peidando feito a porra. Até eu me sinto enojado. E enojar-se do próprio peido sugere que a situação tá realmente preta. Um peido poderoso regularmente, daqueles pouco sonoros e muito presentes, como uma tuba afinada em Dó menor...

Dó do quão intestinalmente fodido eu estou, isso sim. Agora eu sei o que é um sentimento visceral...

Chegou a hora; tô indo embora; de bicicleta... O design infeliz do banco me faz pedalar em pé por todo o percurso. Mesmo assim, as pedaladas estimulam a musculatura glútea... doida pra ejetar merda o quanto antes...

Chego em casa querendo beijar o vaso sanitário na boca.

E se há um dia na vida pra beatificação do vaso sanitário, é hoje.

Os momentos imediatamente anteriores ao ato aceleram o metabolismo da merda, que parece agora fervilhar como sonrisal dentro do meu ser.

Impulso humano cru q pouco teve a evoluir na história: olhar pra merda depois de cagada. Quem não olha? É meramente evolutivo: alguns peixes comem a própria merda. Os cachorros as cheiram. A gente olha...

E justificando toda expectativa que esse toroço em particular gerou, ele tinha que ser visto. Tipo merda-socialite: sai da toca pra ser vista mesmo. Fica 5 minutos lá boiando e depois do flash segue pra algum outro bueiro...

Se há um dia nessa vida pra encontrar uma fita métrica num banheiro, esse dia é hoje....25 centímetros de merda não é normal... É como se eu tivesse mastigado o leitão e o filhodaputa tivesse se juntado todo de novo dentro de mim... Mais uma vez a metáfora da pregnância se faz válida: táva gestando bosta mesmo.

Deixei o torpedo negro em trabalho de parto natural seguido de vários comparsas de menor escalão.

Entendendo agora um pouco mais sobre a insustentável leveza do ser.

Levantei as calças e fui dormir.

Minutos depois, jogado em frente à TV como quem acabou de fazer a travessia do rio Nilo infestado de crocodilos, recebo um torpedo de um de meus companheiros de almoço:

"Meu, caguei muito aquela feijuca!!!..."

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