Defina fúria.
Fúria pra mim é a sensação que se apodera de cada célula do corpo, de cada folículo piloso ou micro parte de nome igualmente indecorável que formam nossa massa biológica, conclamando todas as enzimas e hormônios – e demais fluidos corporais – nessa luta particular condicionada, na maioria das vezes, por uma avaliação individual, e motivos particulares, convergindo na conclusão de que todos seus poros devem mesmo se revoltar em determinada situação.
Feriadão, e hoje eu vou dormir. Acordar às 6 todos os dias deveria ser proibido por lei, então hoje, amigo, eu vou dormir. Especialmente depois da noitada de ontem. Reúno os amigos, vemos um filme regados a vinho e quitutes apropriados, e já às adiantadas 5 da manhã me deito com a reconfortante perspectiva de amanhã não ser acordado pela mesma musiquinha insuportável do despertador. Claro, as músicas de despertador têm de ser insuportáveis, ou não me despertariam. Mas hoje ele está desligado, então, amanhã vou acordar como e quando eu sempre deveria: na hora em que o sono acabar. Parece simples. E é. Mas não é. Não, não é.
Nove e meia da manhã e parece que despejaram a caçamba de lixo hospitalar na minha cabeça.
Com o cérebro ainda tentando se conectar ao sistema do qual foi desligado na noite passada em virtude do vinho, começo a ouvir suaves marretadas na laje do andar de cima.
É difícil acreditar. É bem difícil. Mas elas estão lá. Uma após a outra. E mais outras. Tão fortes que se pudesse arrancar a laje só pra me dar tchauzinho lá de cima, eles arrancavam. E entre cada grupo delas, pequenas pausas, onde percebo que os marreteiros retiram o entulho, pra voltar a quebrar mais logo depois. Essas pausam duram o tempo exato que a minha esperança ingênua leva pra se tornar triste frustração. Até a segunda leva de marretadas eu agüento, esperando que seja algum tipo de sonho ruim, ou uma praga lançada intuitivamente por alguém de quem eu devo ter falado muito mal na noite anterior. Mas não é. É vizinho ruim mesmo.
Levanto da cama como uma ejaculação precoce e vou ao interfone ligar sei lá pra quem pra descobrir se não estão implodindo o andar de cima.
Ele me diz – aos berros, claro, pq nem ele eu consigo ouvir - que o horário permitido para essa maldição começou, e que nada pode fazer.
Se ele não pode, quem pode? Ligo pro BOPE?
Me olho no espelho e reparo em minhas cicatrizes de travesseiro no rosto, acompanhadas do olho grudento e a cabeça pensando que é um bate-estaca, quase como num desenho animado do pica-pau. Uma série incontrolável de bocejos avessos ao espelho me domina, deformando meu rosto de shar-pei mal dormido. Bem mal dormido. Nada dormido, diga-se. O cabelo então, como uma piaçava que acabou de varrer um quilômetro de asfalto... A arritmia se instala no ritmo do meu marca-passos dos infernos, marretada a marretada.
E parece que teve guerra na pia da minha cozinha. Pratos com resto de comida morta. Dois maços de cigarro vazios que contam a parcela de câncer acima da média que consumimos ontem. Meia dúzia de guardanapos de papel molhados de vinho. Meia dúzia de taças sujas de vinho. Um pano de prato sujo de vinho. Uma garrafa vazia, de vinho.
Uma mistura mórbida que leva na fórmula 80% de fúria primitiva, 19% de puro instinto homicida e 1% de resignação compulsória é o que basta pra me descrever naquele momento.
Concluo então que a democracia - baseada nos preceitos de bom-senso que a sustentam - especificamente me fodeu legal hoje. Resta-me então sentar na varanda e tentar escrever um pouco, onde percebo que cada tecla é apertada no espaço exato de cada marretada, como um metrônomo que parece que vem de dentro da minha cabeça descabelada. Penso até em ajudar o pessoal lá de cima, pegar a talhadeira e acabar logo com essa merda de reforma, só pra não correr o risco de que essa merda toda se repita amanhã.
Vida em comunidade é o caralho. Hoje é feriado porra.
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