Lingüiça Calabresa

Morar sozinho é uma crônica; ou várias. Eu dou de cara com elas quando entro em casa, quando saio dela, quando tropeço em alguma meia esquecida ou abro um vinho sozinho.

Por exemplo: fazer as compras pra casa é uma tarefa árdua. Só depois que fui morar sozinho descobri que quase não existem porções "single" de comida.

500g de margarina? Se eu não comer de colherinha dura um ano...

Extrato de tomate então? Joguei o meu fora depois que vi um fungo dando conta dele...

O litro de leite tem que ser tomado em 3 dias... mas nem se eu estivesse em fase de crescimento e com osteoporose ao mesmo tempo...

E açúcar então? 1 quilo? Serviu só pra eu descobrir que existe formiga no prédio.

Então uma dia me deu vontade de comer lingüiça calabresa. Ótimo, pensei no George Foreman fritando o porcão inteiro e resolvi comprar. Vieram duas bananas-nanica de lingüiça, e eu não tinha a menor idéia de se aquilo era muito ou pouco...

Tive a resposta mais longa da minha vida intestinal.

Chego em casa e na hora coloco o George pra esquentar. Nunca fui de comer muito, então corto metade da primeira, abro no meio e mando pra brasa.

Aquele primeiro momento de prazer gastronômico, saboreando a iguaria tão cobiçada, logo se mostraria efêmero; quase ilusório.

Como ainda havia ¾ do que eu havia comprado, comecei a procurar receitas que utilizassem a meia tonelada de lingüiça que ainda existia na minha geladeira. Os dias subseqüentes se resumem a uma insólita busca das mais variadas formas de se consumir lingüiça. Cortei em fatias, fritei, cortei em cubos, assei, coloquei no molho de macarrão, fiz de aperitivo com cebola, coloquei por cima de pizza pronta da Sadia, ralei pra fazer canapés, enfiei na sopa de couve, entre outros...

Ao final de 4 dias como forte candidato ao prêmio Nobel na categoria "Uso e reuso da Lingüiça calabresa- 2008", viro pra segunda prateleira da geladeira e dou de cara com o que eu classificaria de algo bem próximo à visão do inferno: metade de uma banana nanica... de calabresa, claro. Me olhando sem conseguir conter o seu riso de sarcasmo... gargalhando na minha cara e dizendo que eu não consegui acabar com ela ainda... que ela está lá pronta pra me desafiar mais uma vez a tentar comê-la de uma maneira diferente das 11 últimas. Se mijando de rir da cara de enterro que eu faço a cada vez que eu abro a geladeira e dou de cara com ela.

Estendo o braço em direção a ela como quem vai pegar merda sem luva. Um arroto de lingüiça sobre à minha garganta como um vulcão em erupção, fazendo-me lembrar do gosto dela de dentro pra fora... como se não houvesse bastado ainda as 15 vezes que o senti de fora pra dentro... Sim, naquela semana eu comia lingüiça, arrotava, peidava, cagava... tudo lingüiça.... procurava lingüiça na Internet, escondia lingüiça no fundo da prateleira pra ver se esquecia dela até a data de validade, lavava louça de lingüiça, e assim por diante... vários artifícios pra me ver livre - do jeito que fosse - do substantivo lingüiça...

Mas àquele ponto, era questão de honra. Ou eu, ou a lingüiça. E eu não ia perder prum monte de porco moído e defumado. Não senhor... eu ia comer aquela lingüiça até lamber a embalagem, como se fosse a última lingüiça produzida na história.

Então lá fui eu - naquela sensação de déja-vú eterno, como quem acorda de um pesadelo dentro de outro pesadelo de 5 dias – pra mais uma sessão de lingüiça calabresa defumada com qualquer outra coisa que me faça esquecer que tem lingüiça na receita...

A cada garfada, ódio e auto-piedade se misturam. 5% de ódio e o resto da mais intragável auto-piedade; do expoente máximo e mais brega do sentimento de pena por si mesmo.

Devoro sem mastigar, como cachorro faminto. Meu corpo identifica o castigo cruel ao qual eu teimo em submetê-lo e hesita por um momento; quase me devolve o que acabei de socar pra dentro dele... Rapidamente viro um copo de coca-cola pra cimentar aquele tijolo de porco e dou mais essa aventura por encerrada.

Até agora eu venci todas as batalhas contra a lingüiça, mas a guerra ainda não acabou... hoje tem croissant recheado...

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